Arte

Modigliani: vida marcada por tragédias

Conhecido como “Maldit” (maldito), o retratista ia além da aparência. Mergulhava na personalidade de seus modelos 02 de novembro de 2011 - 15h40
Foto: Divulgação

"Lunia Czechowska", de Amedeo Modigliani

Em 1918, Amedeo Modigliani recebeu uma encomenda apetitosa: retratar a bela mulher de um escultor americano como ela veio ao mundo. Nas três sessões em que posou nua, Céline Howard entregou-se ao bem-apessoado pintor italiano de corpo e alma. De corpo, na verdade, só no sentido figurado: mulherengo que costumava arrastar suas modelos para a alcova, Modigliani foi vigiado de perto pelo marido ciumento. Mas não há dúvida de que o artista penetrou na alma de Céline: o que mais chama atenção na pintura são seus olhos sugestivos.

Talvez o maior retratista entre os expoentes do modernismo nas artes plásticas, Modigliani empenhava-se em captar não meramente a aparência, mas a personalidade de seus modelos. E os olhos eram a janela para a essência delas: quanto mais essas figuras transmitiam transparência e franqueza, mais ele os pintava com nitidez.

Como suas figuras de olhos vazios, o artista teve uma existência atormentada. Seus pais vinham de clãs judeus abastados, mas à altura de seu nascimento, em 1884, encontravam-se empobrecidos. Na infância, em Livorno, o pintor já demonstrava fragilidade física. Depois de estudar arte na Itália, ele se lançou na boêmia da Paris do começo do século XX. Modigliani não saboreou o triunfo em vida, ao contrário de um contemporâneo (e rival) como o espanhol Pablo Picasso. Irascível e avesso ao mercado, o artista viveu na penúria.

Em 1920, após duas décadas lutando contra a tuberculose, enfrentou uma complicação fatal, a meningite, numa moradia precária – e alimentando-se de uma lata de sardinhas por dia. “Só tenho mais um pedacinho do cérebro. Sinto que acabou”, murmurou pouco antes de morrer, aos 35 anos.

Mas sua tragédia ainda teria desdobramento: a companheira Jeanne Hébuterne, então grávida de quase nove meses, cometeria suicídio dois dias mais tarde. Logo depois, parentes dela correram para tomar posse de tudo o que o artista deixara. Iniciava-se, assim, um processo espantoso de valorização da obra de Modi – ou “Maudit”, de maldito, como se tornara conhecido na França.

Embora tenha ficado mais famoso por suas telas, Modigliani julgava que seu talento maior era a escultura. Como não tinha dinheiro, usava pedras surrupiadas em construções. As cabeças alongadas que criou refletiam seu gosto pela arte africana, que teve impacto nas vanguardas modernistas. Só abraçou em definitivo a pintura quando já não tinha forças para esculpir.

Nas telas, o alongamento das formas também seria sua marca. Os pescoções advêm de influências como as estátuas de deusas egípcias, nas quais essa parte do corpo surge como uma espécie de pedestal para a cabeça. Para além dos toques exóticos, o artista faz uma ponte entre os grandes retratistas do Renascimento italiano, como Ticiano, e a vertente metafísica da arte moderna. Iniciado pelo avô no estudo da cabala, ele pontua suas telas de alusões à concepção esotérica de mundo desse ramo do judaísmo.

Se o artista mal conseguia vender seus trabalhos por uns trocados no tempo em que viveu, agora seu legado – deixou apenas cerca de 300 pinturas e 27 esculturas – é uma máquina de fazer dinheiro. Em outubro de 2011 foi inaugurada, em São Paulo, a Casa Modigliani. Essa filial do instituto italiano que zela pela memória do artista vai disponibilizar documentos para pesquisas e licenciar de pratos de porcelana a charutos. “A marca Modigliani vale 28 milhões de euros”, diz Alessandro Olivieri, CEO da Modigliani Brand. Bendito seja o maldito.

 

Modigliani: Imagens de uma Vida

A exposição Modigliani: Imagens de uma Vida, aberta no dia 8 de outubro no Palácio Anchieta, em Vitória, no Espírito Santo, traz 170 itens vindos dos Arquivos Modigliani, em Roma, e de coleções privadas da Europa e dos Estados Unidos.

A mostra passará ainda pelo Rio de Janeiro, no começo de 2012, e chegará a São Paulo no meio do ano.

 

 

Fonte: Marcelo Marthe, Veja, 19/10/2011.

 

 

por Momento Italia Brasil